- Introdução: A Revolução da IA e a Necessidade de Governança
A inteligência artificial (IA) deixou de ser uma promessa para se tornar o motor central da economia global, mas sua adoção acelerada impõe desafios éticos e operacionais sem precedentes. Nesse contexto, a ABNT NBR ISO/IEC 42001:2024 estabelece o novo gold standard para a governança tecnológica. Diferente de diretrizes genéricas, esta é uma norma de Sistema de Gestão de IA (SGIA) que exige uma decisão estratégica (conforme item 8 da Introdução) para assegurar o uso responsável e eficiente da tecnologia.
Para o mercado brasileiro, um detalhe é fundamental: a versão ABNT é uma adoção idêntica da norma internacional. Para empresas de Comércio Exterior, isso significa que a conformidade local é um “passaporte” reconhecido globalmente, facilitando a operação em mercados de alta exigência regulatória, como a União Europeia. O foco não é apenas técnico; é garantir a fidedignidade (trustworthiness) dos sistemas, eliminando a opacidade que frequentemente caracteriza a “caixa-preta” da IA.
- Os Pilares da ISO 42001 para a Automação Empresarial
A norma provê a estrutura necessária para que a automação não escape ao controle da governança corporativa. Seus pilares, baseados na Seção 4 e seguintes, incluem:
- Contexto da Organização (4.1 e 4.2): Exige o mapeamento de partes interessadas críticas. No Comex, isso inclui não apenas clientes, mas a Receita Federal do Brasil (RFB), Autoridades Portuárias e Despachantes Aduaneiros, cujas exigências de transparência devem nortear o SGIA.
- Liderança e Políticas (5.1 e 5.2): A alta direção deve prescrever a política de IA, assegurando que os objetivos tecnológicos estejam fundidos à estratégia de negócio.
- Gestão de Riscos e Oportunidades (6.1): Aborda incertezas proativamente, tratando riscos que poderiam comprometer a continuidade operacional.
- Relacionamento com Clientes e Terceiros (B.10): Pilar vital para a logística, que depende de APIs de rastreamento e provedores externos de dados. A norma exige a gestão do risco em toda a cadeia de suprimentos tecnológica (Pág. 51).
- Ciclo de Vida da IA (B.6): Gerenciamento rigoroso desde a concepção e treinamento até a desativação do sistema, garantindo que o modelo não se torne obsoleto ou perigoso com o tempo.
- Relevância Estratégica para o Segmento de Comex e Transportadoras
A aplicação da ISO 42001 no setor de transportes é explicitamente prevista no Anexo D (D.1). Para CEOs e gestores de logística, a norma é a ferramenta definitiva para mitigar riscos financeiros e operacionais:
- Qualidade e Proveniência dos Dados (B.7.4 e B.7.5): Essencial na classificação de mercadorias (NCM). Se a IA “alucina” um código tarifário por falta de qualidade nos dados, o resultado são multas multimilionárias. A norma estabelece controles para garantir que a base de dados seja íntegra e auditável.
- Transparência e Explicabilidade (C.2.11): Decisões automatizadas sobre rotas, fretes ou priorização de carga não podem ser “opacas”. A norma garante o direito à explicação, permitindo que a empresa justifique cada decisão perante reguladores e clientes.
- Monitoramento e Medição (9.1): Estabelece métricas de desempenho para garantir que a automação logística entregue eficácia real, sem erros críticos que possam paralisar a operação em portos ou fronteiras.
- Exemplo Prático: IA no Desembaraço de Cargas Especiais (IMO e Perecíveis)
Considere uma transportadora internacional que utiliza IA para otimizar o fluxo de cargas perigosas (IMO) ou perecíveis. Sob a governança da ISO 42001, a implementação segue critérios técnicos rigorosos:
- Dados de Treinamento (B.7.2): A empresa deve documentar a representatividade dos dados históricos. Para cargas IMO, o sistema deve ser treinado com legislações atualizadas e históricos de frete exatos, evitando falhas de segurança.
- Avaliação de Impacto (B.5): Realiza-se uma análise profunda das consequências de uma falha. Se o sistema sugerir uma rota inadequada para uma carga refrigerada, o impacto financeiro e o desperdício devem ser previstos e mitigados antes do go-live.
- Registro de Logs (B.6.2.8): Não basta registrar a decisão. Para fins de auditoria, a empresa deve registrar a versão específica do modelo utilizado e a proveniência exata do conjunto de dados no momento daquela classificação fiscal ou logística.
- Garantia de Ética e Confiabilidade: O Papel da Certificação
A certificação transforma conceitos abstratos em diferenciais competitivos auditáveis. Ela assegura a Robustez (C.2.8) do sistema, garantindo que a IA mantenha o desempenho mesmo diante de “dados ruidosos” (comuns em portos, onde há erros de digitação manual ou sensores de qualidade variada).
Objetivo de Controle (Anexo A)
Garantia Gerada para a Empresa (Valor Estratégico)
A.2.2 Política de IA
Alinhamento ético total e blindagem jurídica da organização.
A.5.2 Avaliação de Impacto
Blindagem da Diretoria contra responsabilidade civil ao provar diligência na implementação.
A.7.4 Qualidade dos Dados
Eliminação de custos ocultos derivados de erros de classificação (NCM) e manifestos.
A.8.2 Documentação para Usuários
Operação segura e transparente por parte dos analistas de Comex e logística.
Conceitos como Justiça (C.2.5) e Segurança (C.2.10) elevam a fidedignidade da empresa perante parceiros globais, mitigando vieses que poderiam causar discriminação em fretes ou recusas sistemáticas de crédito/seguro.
- Conclusão: O Caminho para a Implementação
A ISO 42001 não é um silo isolado; ela atua como a Camada de Governança Superior que harmoniza outras normas já consolidadas. Conforme o Anexo D.2, ela integra-se perfeitamente à ISO 9001 (Qualidade), ISO 27001 (Segurança da Informação) e ISO 27701 (Privacidade), criando um ecossistema de gestão unificado.
O caminho para a vanguarda do comércio global começa com a avaliação do seu Contexto atual (Seção 4). Iniciar a jornada de conformidade com a ISO 42001 é o passo decisivo para qualquer player de logística que pretenda operar com ética, segurança jurídica e eficiência máxima na era da automação inteligente.


